Aprovam um copo de gracejo

sábado, 22 de dezembro de 2012

Na casa do mundo

Preciso começar este texto sublinhando e grifando que o mesmo é puramente um relato reflexivo de hoje. Farei isto com o intuito de guardar meus pensamentos e conversas introspectivas.
Fazia tempo que eu não entrava em uma igreja. Senti uma certa familiaridade assim que adentrei-a, admito. Mas, ao mesmo tempo, assim que o padre começou suas falas e divagações, ocupou-me a estranheza não só em meu olhar, mas em meu corpo inteiro. Percebi que em meus 16 anos e cerca de 13 ou 14 anos de catolicismo, nunca tinha parado para analisar cuidadosamente cada frase proferida pelo padre, nem o verdadeiro significado do evangelho.
Além de estar desacostumada com o ritmo da missa, senti-me mal ao notar que questionava tudo o que estava sendo dito diretamente do altar. Inclusive questionei-me sobre o que não estava sendo dito. Estava à deriva do mundo, em um lugar a salvo com a minha mente e aproveitei o momento para pensar.
Levantei-me e fui lavar o rosto. No caminho ouvi uma senhora orando dentro do velário que antecede o banheiro. Instigada pela situação, entrei e a vi juntamente a dezenas de velas, de tamanhos e espessuras diferentes, muitas acesas e tentando resistir ao máximo aos desgastes inevitáveis. Eu já havia entrado em um velário e inclusive naquele diversas vezes, só que hoje foi diferente. Não vi apenas velas distribuídas irregularmente por uma salinha preta. Eu vi a fé. Não a fé como uma pessoa ou como um fantasma. Eu a vi personificada em cada vela que queimava ardentemente procurando não ser apagada pelo vento, resistindo ao tempo. Percorri a sala mastigando opiniões que ouvira anteriormente. Opiniões dizendo que o mundo seria melhor sem a religião ou contestando a existência de Deus. Tentei imaginar o mundo sem as crenças das religiões, com os olhos fixados no fogo, e só consegui ver o ser humano vazio, oco e sem um propósito.
Há quem diga, em pleno século XXI, que a igreja martirizou milhares com a inquisição por séculos, além de crucifica-la pelo mal que causou  há tanto tempo. Muitos esquecem que o ser humano por si só martiriza, humilha, maltrata, mata e não precisa da igreja para propagar a hipocrisia. Julgam-na hipócrita mas apagam o fato de que o próprio mundo é.
Cortei-me de minhas divagações, percebendo que precisava voltar à missa. Sentei quando o ofertório já havia sido realizado, mas não me importava. Não tinha ido para rezar, muito menos para temer a Deus. Pensava que se o mesmo existisse, entenderia a minha busca por explicações e a desesperada recorrência à sua casa para buscar as mesmas, embora não acreditasse nessa idealização do mesmo.
Sinto, pelo menos por agora, que Deus é a própria fé. Simplesmente isso. É um outro nome para a fé. Foi criando assim que o ser humano percebeu a sua necessidade de convivência, de não estar só. Não gosto de encará-lo como um juiz, muito menos como algo  de que se possa ter tanto medo a ponto de reverenciá-lo durante a vida toda esperando em troca o Paraíso. Diga-me você, se não acha duro acreditar que após a morte tudo acaba. É o fim. Viramos pó. Não passamos de carne que se apodrece assim que perde a validade. Ficamos inúteis. Eu, você. Seu pai, sua mãe, seus adoráveis avós e seus irmãos. Carne que insetos adoram quando está a deriva. Diga-me, não é aterrorizante? Não é desesperador, mesmo que por segundos, pensar que um dia você estará em um caixão com algodões nas narinas, pronto para ser engolido pela terra?
Sempre seremos uma mistura do bem e do mal. Por isso precisamos de Deus, ou da fé. Você escolhe como chama. Ele é um todo inteiramente bom. Por isso bilhões de pessoas ao redor do mundo se agarram ao mesmo. Porque precisam acreditar que algo melhor pode acontecer. As pessoas precisam de milagres. Precisam acreditar que tudo que passaram não vai acabar em um caixão aterrado.
Foi isso que eu vi em todas aquelas velas unidas. Vi também durante o Pai Nosso que selava as mãos de desconhecidos fortemente. Vi durante a comunhão, durante sorrisos e afetos. Vi inclusive na voz da senhora que orava no velário. Vi nos joelhos envelhecidos que sustentavam os corpos quando tomavam a função dos pés, pressionados ao chão da igreja. Vi nas cartas esperançosas, flores e peças de cera colocadas aos pés de São Judas na entrada da igreja. Nas pessoas que paravam para fazer o sinal da cruz em frente a uma imagem de Cristo.
Concluí que além dos joelhos, a fé (ou Deus) toma a função dos pés na maioria das vezes. E ao meu ver, têm o propósito de nos manter firmes ao mundo, mesmo com toda maldade que o habita. Deus, além da fé, é a esperança.

9 comentários:

  1. Sabe, ontem ao te observar nessa mesma igreja, fiquei com uma vontade imensa de poder ler contigo as entrelinhas do que estava acontecendo, dos significados de cada parte daquele momento, pois te via perdida, como muitas vezes fiquei e ainda fico,mas nada falei. Achei que seria forçar demais.
    E eis que leio esse delicado, porém firme, auto de fé, estou sem palavras filha...

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  3. Que delícia de ler...Que orgulho de ver dentro de uma garota de 16 anos um crescimentos que tantos de 50 ainda não conseguem ter.Parabéns.
    Telma Lima

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  4. Lindas palavras.... O Amor de Deus é isso anjo. Cada pensar, cada gesto analisado, cada dúvida, cada encontro... Fé !!
    Não conheço vc, mas já admiro sua sabedoria. Abraços,
    Prof. Cíntia Matos

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  5. Linda em seu coração, em suas palavras e principalmente em seus pensamentos ! Sua fé raciocinada, lhe dará meios de ter uma visibilidade mais verdadeira dos fatos. Parabéns por romper a barreira de um crescimento difícil nos dias atuais!
    Tânia Rossin

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  6. Antes de depositar a minha opinião sobre esse assunto, quero te elogiar. Como é fascinante quando uma pessoa sabe usar as palavras, encaixa-las perfeitamente umas nas outras. Uns dos dons mais bonitos que se poder ter é o dom de escrever. E você o tem. Virei seu fã. Parabéns minha pequena!
    Agora indo a minha opinião... Existe nas pessoas um vazio, que para preenche-lo criaram as religiões. Todas elas foram impostas suas doutrinas e regras para que seus fieis a seguissem. Não ter uma religião não significa ser um infiel, significa que as vezes existem pessoas que não concordam ou aceitam essas doutrinas e não acham corretas.
    O amor de Deus está em tudo que é bom. Um simples gesto de gratidão ou em uma demonstração de amor. Deus é amor. Deus é a fé. Ter a fé é ter ele no coração. A religião só serve para que as pessoas concretizem, fortifiquem e compartilhem a sua fé.
    Obs: Já que não tenho o dom de escrever, me esforcei um pouquinho pra ser claro o possível. Beijos. :)

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  7. Como de algo tão pequeno brota outro tão imenso, e por que não, profundo?

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